Café
Com histórias de amor e muita malandragem no enredo de sua chegada ao Brasil, não é por acaso que o café pode ser considerado tâo típico do Brasil. Em 1727, o desbravador Francisco de Melo Palheta, de passagem por Caiena, capital da Guiana Francesa, enamorou se de madame Claude D'Orvilliers, mulher do governador local. A paixão ao que tudo indica, foi correspondida, já que na partida de Palheta a dama lhe ofereceu um vaso com flores, onde escondeu algumas mudas de café, ate então proibidas de saírem da região. Palheta agradeceu o mimo e, de volta ao Brasil, cultivou as mudas no estado do Pará. Do flerte de nosso herói Palheta aos dias atuais, o panorama do cultivo do café reproduz a história de uma paixão, incluindo os seus altos e baixos.
O Brasil é o maior produtor mundial, com colheita anual de 25 milhões de sacas. As mudas que chegaram ao Pará renderam uma área de cultivo que se espalha pôr 2100 fazendas, as melhores e mais produtivas localizadas no cerrado mineiro, região de Patrocínio, Uberaba e Patos de Minas. Sua qualidade é seguida de perto pelo sul de Minas – Guaxupé e Poços de Caldas – e pela região paulista de Mogiana - Franca, Mococa, São João da Boa Vista e Altinópolis. No Rio de Janeiro e no Espirito Santo também há muito café, mas de qualidade inferior.
Saboroso e estimulante, não é por acaso que o café inspira lendas e histórias mundo afora, desde que se tornou íntimo do homem. A mais difundida conta que por volta do ano 800, nas montanhas a sudeste da Etiópia, na África, um jovem pastor chamado Kaldi notou que as cabras de seu rebanho ao comerem os frutos vermelhos de um certo arbusto, ficavam agitadas e cheias de energia. Intrigado, Kaldi recolheu alguns frutos e comentou com o abade do mosteiro com que trabalhava. O abade logo tratou de fazer e experimentar uma beberagem com a tal planta, que o deixou muito mais disposto. Com isso, teria acabado com a sonolência dos monges durante as orações.
Depois o café migrou para Arábia, onde, no século XIII, finalmente alguém descobriu as vantagens de prepara-lo com água fervente. Foi tal o sucesso que, até o inicio do xvii, os árabes não permitiam que a planta saísse da região. Os primeiros a conseguir a contrabandeá-la foram mercadores venezianas, que fizeram chegar a Itália alguns punhados de grãos torrados. Mudas foram desviadas para França e, daí, para suas colônias de clima quente nas América, como Martinica e Guiana – ou segundo outra versão da Holanda para América Central. Foi então que Palheta entrou no circuito.
As duas espécies de café cultivadas no mundo são o arábica e o robusta - e só no Brasil são encontrados os dois tipos. O arábica é mais fino com sabor adocicado e aroma agradável, com variações de corpo e acidez que se pode encontrar nas melhores marcas. Já o robusta tem gosto levemente amargo, sem grande variação e com pouca acidez.
É muito utilizado na fabricação dos cafés solúveis para desgosto dos puristas, parte da industria do café utiliza em larga escala o tipo robusta em seus blends, como forma de dar volume e baixar os custos. Algumas marcas porém, já fazem café utilizando 100% de arábica e cravando essa informações no rótulos. “ Deveria haver uma lei que obrigasse as industrias a especificar sempre que tipo de produto estão vendendo” defende o corretor de café Wilson Ramos, de São Paulo.
Trata se no entanto, de uma questão a qual nem mesmo nós, os consumidores, temos dado devida atenção. Como preparar café parece tão simples quanto calcar os sapatos, o brasileiro não se deu conta de que ele tem e a magia de outras bebidas e requer, portanto, os mesmos cuidados até chegar às prateleiras do supermercado, o café precisa de solo e clima favoráveis, para dar frutos adequados, secagem perfeita dos grãos e, para finalizar, torração e moagem no ponto certo.
E isso dizem os especialistas, acontece regularmente. “Temos cafés que não devem nada aos melhores importados” afirma o engenheiro paulistano José Osvaldo A do Amaraste, um estudioso de tudo que envolve a bebida. “A maioria dos agricultores já se preocupa com o tipo e a qualidade do café plantado”, completa o critico gastronômico Saul Galvão, do Jornal da Tarde, de São Paulo.
